Apenas um sonho

Tudo é tão nítido, vivo, e enquanto acontece a minha mente brinca com o impossível, e torna real o imaginário. Fecho os olhos e de repente, um mundo novo.


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Episódio de Hoje: Um pequeno grande mal entendido

De repente, eu estava no meio do corredor na UFRN. As pessoas passavam por mim com tanta pressa, que até os amigos não paravam para me cumprimentar. Alguém que andava cabisbaixo passou por mim, esbarrou levemente na minha mão, e para minha surpresa levantou o rosto e sorriu, com um pedido de desculpas.
Levantei a mão até a altura da cintura e notei que segurava uma nota de R$100, e um bilhete enrolado à ela, que dizia: ‘Pague sua dívida, não esqueça. Guarde bem este dinheiro!’. Não fazia a mínima ideia do que isso queria dizer. Eu não tinha dívida alguma, e não conhecia a pessoa que deixou aquele dinheiro na minha mão. Como eu iria pagar por algo que não sabia o quê, para alguém que eu não sabia quem?
O bilhete dizia: “guarde bem este dinheiro”. Como não era meu, resolvi guardar num lugar bem seguro. Caso contrário havia o risco de que eu perdesse ou gastasse aquela quantia. Abri a tampa da bateria do meu celular, enfiei o dinheiro lá, junto com o bilhete, e fechei.
Não sei quanto tempo se passou, mas pelo desenvolvimento da história não foi muito. Um grande amigo meu passou por mim e me encostou na parede. “Paula, eu gosto muito de você, mas se você não me der o dinheiro, vamos acabar com sérias consequências!”, ele disse e eu pisquei os olhos, assustada. Não sei que pagamento é esse que todo mundo quer que eu faça. Continuei andando.
Eu não tinha dinheiro algum para pagar o que quer que fosse. Não me lembrava de ter, pelo menos.
Saí da aula, e me vi sozinha no corredor de um dos blocos do setor II da UFRN. Não tinha uma alma viva para me fazer companhia, e eu fui ficando com medo.
A mesma pessoa que esbarrou comigo poucos dias atrás chegou até mim novamente. Dessa vez, havia raiva em sua voz. Era uma mulher, não mais alta ou mais forte que eu. Tenho certeza que eu conseguiria derrubar ela com facilidade, se eu quisesse. E eu queria, até o momento em que ela sacou uma arma. Olhei para o cano da arma apontado para a minha testa, e gelei. Não consegui dizer nada.
Algo se moveu atrás dela, mas eu não pude ver o que era, tamanho era o meu medo de tirar os olhos da arma apontada para mim.
A mulher olhou para mim e pude ver em seus olhos que considerou puxar o gatilho, mas desistiu, e correu.
Por uns segundos eu fiquei parada lá, sem acreditar no que havia acontecido. Pensei que fosse morrer, ou ficar muito ferida, e não havia ninguém por perto para me ajudar. Então, eu ia mesmo morrer de qualquer jeito.
Corri, mas no meio do caminho me toquei de que não estava indo na direção contrária, a qual seria bem mais inteligente seguir, sendo a minha intenção a de fugir. Mas, não. Eu estava correndo em direção à mulher que havia me atacado. Parei e a vi de longe, em pé, com a arma na mão direita relaxada. Cheguei de fininho por trás, e chutei sua mão, fazendo com que o revólver voasse a alguns metros de distância dela. Completei o ‘ataque’ com um soco no meio do seu nariz e corri para pegar a arma. Nunca havia manuseado uma arma de fogo antes, nem pensei que fosse precisar usar uma na minha vida, mas sabia bem da teoria. Gritei “QUEM É VOCÊ?” e ela não respondeu. Tentou correr, escorregando algumas vezes, e eu fui atrás. Ela corria mais rápido do que eu, e vou creditar isso aos tremores nas minhas pernas, devido ao medo que eu estava sentindo. Ela sumiu.
Procurei durante algum tempo, e vi uma silhueta de alguém num dos corredores em que parei. Parecia muito com ela, e eu achei que finalmente estivesse em vantagem. Mirei, e meu dedo apertou o gatilho, mas nada aconteceu. Destravei a arma com aquele movimento de vai-e-volta que a gente vê as pessoas fazendo nos filmes, e enfim atirei pra valer. Acertei bem entre os seus seios. Nesse exato momento, as luzes se acenderam, e eu vi quem realmente era. Não era a mulher, e sim uma amiga minha. Ela olhou pra mim e começou a rir, enquanto o sangue ensopava a sua blusa. Gargalhou até que sua risada foi diminuindo, chegando ao silêncio. Olhou para mim e caiu, morta, no chão. Eu comecei a entrar em desespero. Fui até ela, mas não havia mais nada que eu ainda pudesse fazer. Eu havia acabado de matar uma amiga. Ajoelhada ao seu lado, eu chorava, com a arma ainda em mãos. “Paula? É você?”, ouvi uma voz me chamar. Virei-me para ver quem era, e outra amiga me olhava. “O QUE VOCÊ FEZ COM FULANA*? ELA ESTÁ MORTA? O QUE VOCÊ FEZ?”, ela gritou. Passei um tempo sem dizer nada, e olhei pra ela, lentamente fechando os olhos. Eu não queria ver o que estava prestes a fazer. Eu tinha que fazer, ou então ela chamaria a polícia e eu ia ser presa por algo que não foi a minha intenção fazer. Pensei nos últimos anos da minha vida trancanfiada numa cela sebosa do sistema presidiário brasileiro. Pensei em atirar em mim mesma, teria sido mais fácil. Mas, por algum motivo, resolvi não fazer isso. Murmurei um pedido de desculpas, e atirei nela. Ela riu enquanto caía, do mesmo jeito que a outra amiga fizera.
Uma poça de sangue se formava ao meu redor.
O mesmo amigo que havia me encostado na parede momentos antes, chegou e viu tudo. “O que você está fazendo? Basta entregar o dinheiro!”, ele disse e eu me exaltei. “QUE PORCARIA DE DINHEIRO?”, e então eu lembrei. O meu celular, e a nota de cem reais que eu havia escondido nele. Abri e estava lá, do mesmo jeito que eu havia deixado. Levantei-me e enxuguei as mãos sujas de sangue nas minhas calças. “Eu fiz tudo isso por causa de algo que eu não sabia que estava acontecendo. E pela minha memória ruim, matei duas pessoas inocentes, e… Desculpa, fulano…” e pela terceira vez, atirei.
Meus olhos estavam arregalados de medo e eu sentia a adrenalina nas minhas veias. Andei pelos três corpos e cheguei à uma janela. Debrucei-me sobre ela, e atirei nas duas pessoas que me olhavam lá de baixo.
Pensei em pular da janela e fugir, mas não saberia para onde ir. Novamente pensei na possibilidade de atirar em mim mesma, mas não havia mais balas. Xinguei e xinguei, esperneei e chorei. Muito. Repetidas vezes.
Até que um dos amigos (mortos) se levantou e disse: “Pronto, minha gente. Vamos acabando com essa brincadeirinha do ketchup. Perdeu a graça!”, e eu olhei, espantada e puta, muito puta. “Cacete, achei que tivesse mesmo matado vocês!”, os outros se levantaram e limparam o “ketchup” na roupa.
Eu e o amigo pegamos um pote de margarina e jogamos no lixo. “Pronto, acabou”, ele disse, e nós 6 saímos do prédio, em direção ao estacionamento.

*não vou citar nomes.

Episódio de hoje: Cientistas ‘fanteiros’

Fanta laranja para experimentos médicos, era essa a ideia. O refrigerante foi colocado em teste por cientistas conceituados, e todo mundo esperava que o resultado fosse positivo.
Um cientista meio careca sentou-se ao meu lado com uma expressão curiosa, e ao mesmo tempo cansada. “Não aguento mais, a fanta não faz efeito nos camundongos” ele me disse.
Litros de Fanta subiam e desciam em espiral passando por uns tubos de ensaio (ou coisa parecida) e borbulhavam dentro de um último recipiente. Haviam pessoas sentadas ao lado desses aparelhos, com tubos enfiados em seus narizes, recebendo a substância final, que segundo os médicos cientistas, subia diretamente para seus cérebros.
Pra falar a verdade, eu acho que esses caras estavam fazendo aquilo simplesmente pra ficar doidões, porque eles saiam das ‘experiência’ um pouco dementes. Mas acho que eu nunca vou saber.

Episódio de hoje: Killing reptiles (parte II)

Eu já estava ficando impaciente com a demora. O navio fazia todos os tipos de barulho e não saia do canto. Até que senti um tremor e fomos todos avisados que estávamos partindo. Eu estava sozinha. Minha mãe não estava comigo, nem nenhum dos meus amigos. Era só eu e centenas de passageiros desconhecidos, completamente alheios à minha situação de foragida. Não sabia se os policiais ainda estavam atrás de mim. Se estavam eram muito burros, ou cegos, porque eu não estava fazendo o mínimo esforço para me manter escondida. Não recebi ordens para fazer isso, e a única coisa que me deixava em segurança eram os passaportes que eu carregava com todo cuidado numa mochila surrada.
Enfiei a mão no bolso e encontrei algum dinheiro. Fui andar pelo navio para fazer um reconhecimento de área, afinal, eu precisava estar preparada para fugir ou me esconder a qualquer sinal de problemas para o meu lado.
O navio nunca chegou ao seu destino, e anos passaram. Foi como se ele estivesse navegando infinitamente e enquanto isso nós vivíamos nossa vida em alto mar. 
Em um desses anos eu devo ter me descuidado, mas não sei o que aconteceu. Só sei que acordei amarrada numa cama de hospital, com roupas brancas dessas que amarram as mãos cruzadas para trás, quase como uma roupa usada nos manicômios. Eu estava suando muito, e não conseguia identificar o lugar onde eu estava.
Uma mulher loira entrou no quarto e chamou o meu nome. Tentei responder mas não consegui reproduzir nenhum som compreensível. Acho que estava drogada. Ela segurou os meus ombros e me chacoalhou algumas vezes. Por fim consegui dizer ‘oi’ e focar minha visão em seu rosto. Era a Olivia Wilde em carne e osso (e sonho), bem ali na minha frente. Eu esbocei um sorriso e pedi que ela me tirasse dali. Por algum motivo agimos como se fôssemos íntimas uma da outra. Eu estava achando o máximo, e esqueci completamente que estava num local completamente desconhecido, amarrada numa cama, dopada e sem condições de me mexer. Ela me tranquilizou e disse que tudo ia ficar bem. Desamarrou as minhas mãos e pediu que eu ficasse calada enquanto nós passávamos pelos corredores protegidos por seguranças armados.
Chegamos à recepção e uma moça me entregou um potinho com uma coisa verde dentro. Cristais ou algo do tipo. Ela disse “finja que você nunca foi viciada nisso, e tudo vai ficar bem!” e eu assenti com a cabeça e continuei o meu caminho ao lado da Olivia Wilde.
Entrei num táxi e foi aí que nós nos separamos. “Você vai conseguir” ela disse e eu lhe dei um sorriso sonolento. Adormeci no táxi e quando acordei estava de volta ao navio. Minha mão estava fechada e quando eu abri encontrei o pote da coisa verde que a mulher me deu. Não foi um sonho. O que era aquilo? Abri o pote e cheirei a coisa verde, depois botei na boca. “Isso é bom” eu pensei, e em seguida desmaiei.
Acordei e anos já tinham se passado. Nada de polícia atrás de mim, nada de hospitais e camas de manicômio. Eu estava numa espreguiçadeira, com um chapéu e óculos de sol, mas era noite.
Algumas pessoas começaram a se jogar para fora do navio, indo de encontro à morte. E eu observava enquanto elas se despediam delas mesmas em voz baixa, e se atiravam contra as ondas do mar gelado. Eu sei que estava gelado por dois motivos: Era de noite e estávamos em alto mar, e em minha mente ecoava o discurso que Jack fez à Rose para impedí-la de fazer o mesmo, em Titanic.
No entanto, eu parecia não me preocupar.
Uma a uma as pessoas foram caindo, era quase uma espécie de suicídio coletivo.
Um policial apareceu e era o mesmo que tinha ido atrás de mim após a morte do lagarto. Eu ri para ele e falei “Mas tão cedo?” e ele não quis conversa. Começou a atirar canivetes em mim, e eu desviava com sucesso. Peguei alguns do chão e atirei de volta, acertando 3 em seu peito e um diretamente no meio de sua testa. Ele caiu do navio e sumiu.
Um menino anunciava “OLHA A BALA E O CHICRETE” e balançava um Tic-Tac. Eu o chamei no canto e comprei uma embalagem verde. Aquilo que eu comprei (o que quer que fosse) era feito com a mesma coisa que tinha no potinho que a recepcionista havia me dado anos atrás. Coloquei um na boca e saí.
Entrei numa kombi e saí dirigindo. Eu estava indo muito rápido e acabei derrapando, e a kombi ficou descontrolada. Bati às portas do Opera House, em Sydney. Dentro estava inundado e a kombi foi afundando e afundando e eu tirei as mãos da direção e fechei os olhos. Uma narração ao fundo dizia algo sobre “A hora acabou chegando…”. Foi um final deslumbrante, mas muito complexo para ser lembrado.

Episódio de hoje: Killing reptiles (parte I)

Esmaguei a cabeça dele. Apertei na minha mão como se aquilo fosse um objetivo de vida. Senti o pescoço dele quebrando e pendendo para fora. Coitada daquela criatura. Não sei dizer se era um peixe ou um réptil, mas tinha jeito de lagarto numa vibe pré-histórica. E eu matei.
Ele estava no meu carro, que servia como uma espécie de aquário enquanto eu dirigia pela BR 101. Minha mãe estava comigo, e apertou um botão vermelho, liberando litros de água dentro do carro, que encheu até a altura das nossas barrigas. O lagarto (ou peixe, ou seja lá o que fosse) ficava nadando lá dentro, e me mordendo com força aqui e acolá. Muita força. Eu tentava separar a boca dele do meu braço, mas aqueles dentes afiados davam de mil a zero na minha força braçal. Fiquei com marcas no antebraço e nas palmas das duas mãos. Sendo assim, depois de lutar inutilmente contra aquela forma de vida indefinida, eu resolvi acabar com sua existência. Segurei-a para fora da janela e espremi a área comumente conhecida como pescoço, entre sua cabeça e o resto do corpo. Senti os ossos quebrando, e percebi que já era. Morto por minhas mãos.
Eu percebi também que estava sendo observada por um policial. Na verdade, eu já tinha percebido estar sendo observada muito tempo antes disso. A cada parada que eu e minha mãe fazíamos durante a viagem, eu notava os olhos fixos em nós. Mas naquela hora, na hora em que eu dei fim ao bicho, ele me olhou com um olhar de fúria. E fez uns gestos como quem pede por reforço.
Fiquei com um sentimento de culpa enorme. Não pelo fato de estar sendo vigiada por uma autoridade, mas sim porque eu havia matado um animal. Por mais horrendo que ele fosse, por mais que ele quisesse me matar, eu acabei com a vida dele, e isso não é algo que eu faria em circunstância alguma. Eu sou uma pessoa tão ecologicamente correta, que até no sonho isso pareceu errado. E eu comecei a chorar. “Não acredito que eu matei ele, mãe”, eu disse. “Vou me entregar à polícia. É o certo a fazer! Eu matei esse lagarto! Eu mereço!”.

Cheguei em casa e vi a mesma criatura num aquário na bancada da minha área de serviço. Achei que estava imaginando tudo. Não tinha dois deles, era só um, que não existia mais. “Mãe, eram dois?” perguntei e ela respondeu “Não, só aquele. Que é esse. Que estranho!”
Fui na delegacia mesmo assim, e ao assumir o meu crime, contestei o fato de ter chegado em casa e visto o mesmo bicho, vivo. O policial me olhou com uma cara estranha e eu percebi que eu não deveria saber disso. Nesse mesmo instante, um homem muito parecido com o Ewan McGregor me empurrou e falou “Corra!” e eu o fiz. Depois ele se juntou a mim e nós entramos num ônibus. O trânsito estava péssimo, tivemos que fazer muitos retornos e gritamos várias vezes mandando o motorista acelerar, pois estavamos sendo seguidos por milhões de viaturas.
Chegamos num lugar que lembrava um porto. E tinha um navio enorme, com uma placa que indicava que seu destino era a Disney. Fui bruscamente puxada para um canto de parede pelo “Ewan McGregor” e ele me entregou vários passaportes falsos de uma identidade que eu iria assumir dali em diante. Afinal, eu era uma foragida.
Peguei tudo e fui pra uma fila, fiz uma entrevista e passei. Entrei no navio, sozinha e apavorada.
E esperei, esperei, e esperei a partida.

Episódio de hoje: Werewolf 13 e a reserva indígena

O calor era insuportável e eu estava usando uma calça jeans, num incômodo desgraçado por causa do suor, que fazia a calça colar e cozinhar em mim. A regata que eu usava até que ajudou um pouco a amenizar o calor, porque pelo menos não era uma camiseta, e enfim, pelo menos não piorou a situação.
Tirei a calça (com medo de levar minha pele junto) e me senti muito mais aliviada. Eu estava suando anormalmente, como se estivesse fazendo uma série de 10 minutos de step na academia. Eu sentia meus órgãos fervendo dentro de mim, e sabia que alguma coisa errada estava acontecendo, prestes a piorar.

O lugar onde eu estava era deserto, e como eu já falei antes era muito quente. Tinha uns morros de areia amarela, e pouca vegetação. Aos poucos eu fui dando conta da existência de outras pessoas na região, e percebi que eu estava numa reserva indígena. Só que os índios (ou os supostos indíos) eram mendigos.

Perto de onde eu estava em pé, avistei uma placa de uma cabana, onde estava escrito: “Bem vinda à Werewolf 13”. Werewolf, werewolf, aquilo me lembrava alguma coisa. Índios, minha temperatura quente, me fizeram perceber: eu era um lobisomem. Ou estava me tornando um.
Crianças passaram correndo por mim gritando “A tampa da pasta de dente!”, e eu não fazia ideia do que elas estavam falando. “Que tampa, que pasta de dente?” eu perguntei. “A tampa de qualquer pasta de dente. Você tem que furar seu dedo nela, só assim vai parar de suar!”. Fiquei tentando processar a informação, procurando entender como furar meu dedo numa tampa de pasta de dente ia resolver o meu problema.
Como não achei resposta, resolvi ouvir as crianças. Saí à procura de uma pasta de dente. Não achei.

No caminho, achei uma outra cabana, com uns homens em cima do telhado, trabalhando. Eles me chamaram e disseram pra mim que “estava na hora”. De quê? Não sei. Mas subi.
“Mestre, mande ela socar!”, um dos caras falou pra outro visivelmente mais velho. “Mande ela socar e quebrar e estraçalhar esse teto! Quero ver!”. Eu só olhava meio desconfiada. Qual era a minha relação com aquele lugar?

Senti a força vindo dentro de mim, dei um sorrisinho malicioso pro homem no telhado e levantei o pulso. Olhei pra meu punho cerrado e novamente para o homem. E com uma velocidade fora do meu conhecimento, esmurrei a madeira do telhado. Para a minha surpresa não doeu, e eu consegui abrir um buraco no lugar que minha mão atingiu. Olhei espantada para todos eles, que demonstravam satisfação. Novamente esmurrei o telhado. E de novo, e de novo, até que estivesse completamente quebrado.

Nesse ponto, eu já estava afogada em suor, mas sentia como se aliviando a tensão, minha temperatura diminuísse. Por isso continuei fazendo, para evitar que meu corpo explodisse como uma panela de pressão.
Ao término da “tarefa” um homem gordo e careca me olhava de baixo com um martelo na mão. Instintivamente desci do telhado e corri, fugindo dele. Foi quando me deparei com o “clã dos mendigos/índios” que me deram abrigo e comida, e a tampa da pasta de dente. Furei meu dedo, e todo mundo se reuniu em volta de mim. E começaram a aplaudir.
O mesmo senhor que estava em cima do telhado me entregou uma medalha de madeira, escrito: “W13”. Werewolf 13. Eu era a décima terceira, pelo visto.

Nós uivamos e levantamos as mãos para a lua, que estava saindo gigante de dentro do mar. E comemoramos em frente a uma fogueira.

*nota - Warehouse 13 é o nome de um seriado que eu nunca vi na vida. Acho que isso de Werewolf 13 foi baseado nisso pelo meu insconsciente. Se bem que eu nunca vi a série, mas já que eu sabia da sua existência, estou apenas supondo que foi isso que aconteceu.

Episódio de hoje: Uma visão do fim do mundo

Alguma coisa aconteceu, havia fumaça marrom pra todos os lados. As pessoas corriam desesperadas, mas eu simplesmente estava lá, parada, tentando entender o que estava acontecendo naquele momento. Foi como se eu tivesse acabado de chegar ali, e não fizesse ideia de como proceder. Olhei pra cima e inspirei. Óbvio, comecei a tossir. Comecei a ver pessoas conhecidas correndo à minha volta e chamei algumas delas para perto de mim.
A fumaça ficava cada vez mais densa, e eu resolvi correr também, ou iria morrer sufocada. Acabei chegando num lugar que parecia uma vila, de casas brancas e azuis, e jardins bem cuidados. As pessoas começavam a se multiplicar, e quando dei por mim já tinha muito mais gente do que quando eu cheguei. Muita gente conhecida, alguns amigos, e outras pessoas que nunca vi na minha vida.
Aparentemente a gente tinha que fazer alguma coisa estando lá. E cada casa guardava um trabalho. Na minha casa, nós tínhamos que fazer sushi. Mas todo o peixe e kani estavam congelados. Colocamos no microondas e esperamos. Alguém chegou de repente dizendo que a área precisava ser evacuada, e nós deixamos o sushi pra trás.
Passamos por uma casa e todo mundo começou a olhar pra mim, e eu me senti meio constrangida. Daí eles começaram a olhar pra todas as outras pessoas que estavam comigo, e fazer ‘fiu fiu’ e coisas do tipo, e nessa hora eu percebi que estávamos todos nus. Corri e vesti uma roupa imediatamente. Uma camiseta branca e uma calça de moletom preto, e percebi que todos estavam vestidos assim.
Corri sozinha e subi uma montanha, e lá de cima vi que todos entravam numa fila. Depois de um tempo descobri que essa fila era pra morrer. Você assinava um termo dizendo que queria morrer e morria. Mas continuava lá, só que quem estava morto não via quem estava vivo. Eu comecei a gritar “DON’T GET YOURSELF KILLED!”, tentando impedir. Não deu muito certo, a maioria das pessoas quis morrer. Eu e mais um pequeno grupo de ‘sobreviventes’ nos juntamos, como uma ‘resistência’. Era engraçado ser invisível. As pessoas mortas podiam nos ouvir, mas não nos ver. Acho que estávamos tentando salvar as almas delas, mas não me lembro como isso funcionava.
Um certo momento eu andava pela rua, e vi um pinguim. Ele usava óculos azuis, e acenou pra mim. Rapidamente peguei minha câmera e fui tirar fotos dele, mas não conseguia porque a câmera se recusava a funcionar. O pinguim começou a perder a paciência e gesticulou dizendo que ia embora. Eu falei, implorando: “Espera, a última!” e tentei fotografá-lo pela última vez, mas também falhei. E ele foi embora.

Outras coisas aconteceram, mas acho que elas são mais legais se guardadas para mim.

Episódio de hoje: Discórdia

As pessoas começavam a chegar, e eu nem me lembrava há quanto tempo eu já estava ali. A piscina, a arbitragem, as atletas. Tudo como era uns 5 anos atrás. Encontrei a mãe de uma amiga, e falei: “Tia, me federei novamente. Vou competir hoje, pra ver o que acontece, né?” ela falou que estava super feliz, e nós seguimos cada uma seu caminho.
Algumas coisas aconteceram nesse meio tempo entre esse diálogo e o que eu vou comentar agora. Mas são coisas relevantes, portanto não interessa no momento.

Eu estava junto de alguns amigos, e nós começamos a dançar quadrilha. Rindo e brincando uns com os outros, estava tudo muito feliz. No meio dessas pessoas estava alguém com quem não tenho mais contato hoje em dia. Não por não querer, mas algumas coisas aconteceram no passado e hoje é como se nós não nos conhecêssemos. E, de fato, não nos conhecemos. Não tivemos a chance de realmente chegar ao nível da amizade, mas havia alguma coisa, e ainda assim agimos como completos estranhos.
Não vou dizer quem é, quem tiver que saber vai saber. Ou não. Mas não vou dizer nada. Tirem suas próprias conclusões, se quiserem.
A pessoa me olhava com felicidade, transpirando um alívio de quem diz: “finalmente acabamos com essa palhaçada”. Eu estava satisfeita com aquela súbita mudança de comportamento de sua parte. Fui na onda, me diverti.

Chegamos na arquibancada, minutos mais tarde, e sentei-me com um amigo. Ao meu lado, um envelope amarelo semi-aberto me esperava convidativo. Olhei e não vi nenhum tipo de identificação, resolvi abrir. Dentro havia umas fotos da pessoa em questão com seu ‘significant other’, que também não irei especificar. Na verdade, essa pessoa ERA ‘significant other’, e eu fiquei surpresa ao ver que estavam novamente juntos. Pra falar a verdade, não me importei. Olhei para trás e os vi abraçados, sorri. Posso jurar que no meu eu adormecido eu não fiquei incomodada. Me senti puramente livre. Ou pelo menos, era quase isso.
Olhei para trás novamente e pedi permissão para ver as fotos. Recebi um olhar de desdém, uma atitude ridícula e um ‘não’ silencioso. Fiquei sem entender. Há algum tempo atrás estávamos sorrindo, e agora isso? Não dá. Perguntei novamente, e recebi a mesma resposta, desta vez com mais frieza. A pessoa ao seu lado pareceu questionar sua decisão, incentivando-a a me deixar olhar as fotos. Eu já havia visto as malditas fotos, só estava sendo simpática ao pedir por permissão. Ninguém precisava me permitir nada. Eu podia fugir, queimar, rasgar, olhar, distribuir, fazer o que eu quisesse com elas. Sou dona de mim, é o que eu sei.
Por uma terceira vez perguntei, enfatizando meu pedido com o olhar. E brinquei, dizendo que não era nada demais.
Desta vez recebi a indiferença. Esperei e nada mudou. Ainda recebi um olhar que me dizia muito bem que eu não era bem vinda. Ou melhor, tentava fingir, sem muito sucesso, porque eu sabia que a coisa não era bem assim.
Me levantei, peguei o envelope (que agora não era mais envelope, e sim uma caixa daquelas de metal, de panetone) e fiquei frente aos dois, que desfizeram o abraço no momento em que eu cheguei. Éramos três, mas o terceiro elemento se tocou da sua intromissão, e nos deu licença. Olhei bem fundo em seus olhos: “Sabe o que você faz com essas fotos?” eu disse. “Enfia no seu cu”. E, de repente, espanto. As pessoas ao redor me olharam como se eu tivesse enlouquecendo, e eu repeti: “Enfia essa merda no seu cu. As coisas têm limite. Por um tempo foi difícil ignorar, fingir que eu não me importava. E agora eu te mando sem remorso: vá à merda”. E saí, de nariz em pé, cabeça erguida.
Senti uma mão me parando. “Espere”, eu ouvi. “Você está errada”. Eu estava mesmo. Não poderia ter me comportado assim, mas era muita raiva presa na garganta, e eu queria socar e bater e gritar. Isso era tão injusto. “Você não pode falar assim comigo”. Eu estourei novamente e disse algumas coisas que não vou reproduzir aqui. No final, eu estava chorando. Não de tristeza, de raiva. Vi em seus olhos a mesma coisa que eu sentia, de uma forma ainda mais reprimida. Fiquei calada. Abri a boca várias vezes pra falar e nada saiu. Então eu me aproximei e nós nos beijamos. A princípio foi forçado por mim, eu precisava daquilo pelo menos uma vez na minha vida. Mas me espantei ao ver que segundos depois o beijo estava sendo correspondido. Me afastei. Nos olhamos por um momento, e eu quis fugir. A terceira pessoa (que estava observando há algum tempo, de longe) ressurgiu e falou “está tudo bem” para a que estivera comigo durante esse tempo. Tentava demonstrar arrependimento, mas não havia nenhum. Os 4 últimos anos passaram por mim voando em segundos. Estendi a mão. Em troca recebi um tapa. O que diabos havia de tão errado? Estava tudo certo. Era assim que deveria terminar. Desde o começo, esse era o fim. Saí correndo o mais rápido que eu pude e sentia as minhas lágrimas queimarem o meu rosto. Quão idiota eu havia sido? Trazer de volta? Sentir pra quê?
Aquela figura alta, loira e forte me parou. No final das contas, ele acabou sendo o frango¹ mais legal que eu havia conhecido. Entendeu, me abraçou e quis que eu voltasse lá. Eu não podia. Tinha errado demais. Não era assim. Não conseguia parar de chorar, e liguei para algumas amigas, explicando o que havia acontecido. A reação de todas elas foi praticamente a mesma. Mas nada que ninguém dissesse podia me acalmar. Eu estava com raiva.
Tudo ficou por isso mesmo. Eu fiz o que eu queria fazer, falei o que eu queria falar. E no fim tudo acabou como deveria. Do mesmo jeito.

¹- apelido “carinhoso”.

Episódio de hoje: Festa na fazenda da mulher biônica

Eu estava numa festa super legal e divertida, num espaço super amplo e ótimo para festas. Era uma fazenda, mas eu não percebi isso até ver uma árvore cheia de galinhas. Eu sei que galinhas não ficam em árvores, mas essas eram galinhas especiais. Elas tinham a cara de um pokémon que eu não lembro o nome.
Muitas das pessoas que estavam nessa festa eram as mesmas que estavam numa festa de verdade que eu fui ontem, dia 12. Então foi algo como a continuação da festa, ou sei lá.

Os ambientes eram bem diferentes. Uma parte era num jardim, super iluminado e lindo (não tinham galinhas nas árvores do jardim, ok? só luzes e flores lindas) e a outra parte era dentro, com música alta e luzes coloridas. Umas pessoas vinham falar comigo como se eu fosse a pessoa mais pop do ambiente, e saiam de lá dizendo ‘oh meu Deus, falei com Paula, eu-falei-com-Paula’. Achei no mínimo estranho, mesmo no sonho. Eu acho que eu estava meio bêbada, tentava me equilibrar e não conseguia, e esbarrei numa menina. Ela devia estar igualmente bêbada e se agarrou em mim. Nós duas caímos numas almofadas roxas super macias, e eu acho que fiquei um bom tempo lá. Me levantei e fui respirar ar puro (ou nem tanto, tinha gente fumando) e encontrei uma das meninas que estava na festa ontem. Ela pediu pra que eu buscasse alguma coisa no depósito, mas sei lá porque ela acabou indo comigo.
Eu falei “Não vou andar até lá”, mas ela me olhou com uma cara de “vai sim, sua preguiçosa!” que eu tive que ir andando.
Era uma estrada de terra, com árvores secas (as que as galinhas estavam nos galhos), e uns animais estranhos que pareciam chinchilas, mas diferentes. Quão diferentes eu não saberia detalhar, mas enfim, imaginem que um gato cruzou com a prima de uma chinchila de orelha em pé e vocês terão uma ‘figura’ pela qual se basear. Continuei andando, e ouvi uivos. Muitos uivos, e um bafo quente atrás de mim. Estava escuro, mas eu percebi que estava rodeada por lobos cinzas. Dei um chute no focinho de um, e pulei. Abri os braços e comecei a nadar borboleta no ar. Eu estava voando. Não é a primeira vez que eu sonho que isso acontece desse jeito. Chega uma hora que eu não consigo mais me sustentar no ar e tenho que descer e dar mais um salto de impulso. Cada vez que eu tinha que fazer isso, um lobo levava um chute no focinho. Eu que não ia deixar eles me morderem e me matarem, principalmente se eu podia voar e me livrar deles. 
Eu achei que a menina que estava comigo tinha morrido estraçalhada, porque coitada, ela não sabia voar como eu sabia. Ela até tentou bater os braços como eu fiz, mas eu era a única habilidosa do recinto. Talvez por isso as pessoas tenham ficado tão lisonjeadas e satisfeitas por falar comigo na festa. Cheguei a algum lugar com um banheiro. Tinha um cara fazendo xixi de porta aberta, e eu notei que ele tinha um abdômen super definido. Ele olhou pra mim, fez uma cara sexy e falou ‘Quer enfiar o dedo no meu umbigo, gata?’. Olhei pra ele com cara de desprezo e disse que não. Fui buscar o que quer que fosse que eu precisava buscar, mas não achei. Acho que é porque eu não sabia o que era.

Voltei voando ao lugar dos banheiros e encontrei a menina que estava comigo. Intacta. Fiquei feliz por ela estar viva, e ela me abraçou bem forte. O cara do abdômen definido apareceu novamente e carregou a menina em seus braços musculosos. Ele andou alguns metros com ela nos braços, e eu vi que das costas dela saia um fio. Ao dar mais alguns passos, o fio esticou muito, e desconectou. Isso fez com que ela se partisse em vários pequenos pedaços, e faíscas saíssem do seu corpo. Descobri que ela era na verdade um robô, e o cara fugiu resmungando palavras soltas de desgosto. Juntei os pedaços da menina num cantinho da parede, e saí voando de volta para a festa. Na volta, parei embaixo de uma das árvores para alisar uma das chinchilas mutantes.

Episódio de hoje: Jennifer’s body, again!

Fiquei ponderando se devia ou não comentar sobre esse sonho por aqui. Resolvi que sim, então aproveitem. O título faz referência ao filme “Jennifer’s Body” (Garota Infernal).

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Era tarde da noite e eu estava no auditório do colégio, junto com o que era a antiga turma A do 3º ano do Ensino Médio. Estávamos no que seria uma aula de biologia, mas o professor era Israel (e ele é professor de Geografia). Eu e minha amiga Déa deveríamos apresentar um trabalho sobre um capítulo do livro, mas nós não sabíamos de nada, então eu comecei a enrolar. Fui lá na frente e respirei fundo, olhei pra todo mundo e disse: “Estou completamente preparada para fazer isso”. E todo mundo riu.
Abri o livro e comecei a ler os parágrafos, num tom de discurso que não parecia que eu estava apenas lendo. Conseguimos passar por aquilo sem nenhum problema, eu acho.
Ao voltar para os nossos lugares nas cadeiras do auditório, notei que alguém olhava pra mim fixamente. Eu sou míope, e na ocasião estava sem óculos, então não consegui dizer logo de primeira de quem se tratava. Perguntei à Déa e ela disse: “Paula, acho que é ela. De novo”. Eu entrei em choque e falei: “Não pode ser, amiga. Ela morreu, não se lembra?” E ainda assim eu sentia aquele par de olhos fixos em mim. Me encolhi na cadeira, de modo que não dava mais para me ver, se você olhasse do ângulo que ela parecia estar me olhando.
Seus cabelos eram pretos e ondulados, perfeitamente caídos abaixo de seus ombros. Ela usava uma blusinha extremamente provocante, dona de um mega decote. Qualquer homem caía aos seus pés, ela era o exemplo de mulher perfeita.
Déa cochichou para mim: “Amiga, ela continua olhando e não vai parar. O que a gente faz?” e num momento insano eu gritei: “SAIA DAQUI SUA ASSOMBRAÇÃO!” e comecei a rir. Eu e Déa rimos como sempre ríamos quando alguma coisa muito engraçada acontecia.
Eu agora já estava de óculos, podia enxergar o que acontecia ao meu redor. Olhei para onde ela estava, e vi que ainda me olhava. Inclinou o seu rosto em minha direção, e me olhou com os mais lindos olhos, e eu pude sentir sinceridade em seu olhar. Eis que a sinceridade se transformou em raiva, seus olhos ficaram vermelhos e ela sorriu para mim. Seus dentes eram pontudos e prateados, como presas de alguma criatura demoníaca. E em seguida, ela desapareceu.

A aula acabou, e todos começaram a ir embora. Meu material caiu no chão e eu me atrasei um pouco. Quando dei por mim, o professor estava de saída para apagar as luzes, e eu tentei correr para alcançá-lo. Dei um grito de “Não me deixe aqui sozinha!”, e um baque me impediu de continuar correndo, derrubei as minhas coisas novamente. Meu dedo indicador direito estava preso a um fio de nylon, vindo sabe Deus lá de onde. E dava várias voltas no meu dedo, eu não tinha como escapar sem perdê-lo. E eu não queria perder o meu dedo. Mas eu também não queria morrer, porque eu sabia que ela ainda estava lá, em algum lugar, me olhando, e com uma raiva estrondosa de mim.

Não teve jeito. Tudo ficou escuro, e eu ainda estava presa. De repente, alguma coisa voa em minha direção e me derruba. Num momento eu estava caída, (o nylon em volta do meu dedo havia desaparecido) em outro, eu estava aguentando o peso de uma gorda de 150 kg em cima de mim. Ela era gorda, e muito feia. Me olhou nos olhos e eu sabia o que estava acontecendo. “Então, Paula. Eu morri, né?” ela me disse. “Megan, Megan. Que corpo horrível foi esse que você decidiu voltar? Pelo amor de Deus, saia de cima de mim, não consigo respirar!”. Ela abriu a boca, suas bochechas se rasgaram e os dentes aparentaram ser ainda maiores. Uma baba prateada saiu, e eu senti um bafo impiedoso. “Vamos lá, Preciosa, saia de cima de mim!” e ela o fez. Eu aproveitei o momento para sair correndo, ainda que sem ar. Corri o mais rápido que pude, e não estava conseguindo ver direito porque alguma coisa embaçava minha visão. Depois entendi que eram lágrimas. Parei e respirei por alguns minutos, certa de que ela não iria mais me pegar.
Um carro parou do meu lado, um conversível prateado. Uma mulher muito parecida com a Jordin Sparks olhou para mim e me perguntou se eu queria carona. Disse que sim e entrei no carro. Depois de horas rodando sem rumo e quase nenhuma palavra trocada, ela resolveu parar o carro no acostamento. “E aí, o que você acha desse corpo, então?” me perguntou com um sorriso malicioso. “Eu não acredito que é você de novo. O que diabos você ainda quer comigo? Quer me comer? Vai lá, champz, me engole inteira, nem mastiga” ela ficou me olhando, e por um momento achei que ela fosse chorar. “Eu só queria te pedir desculpas, sabe? só isso”. Uma vontade súbita percorreu o meu corpo, e quando vi estavamos nos abraçando. Eu senti suas lágrimas nas minhas costas, e disse: “Você sempre vai ser especial pra mim, mas não precisa fazer isso, ok? Pare de tentar me assustar, e me castigar, eu não mereço isso.” “Não, não merece. Me desculpe!”. Ela me deu um beijo na bochecha e desapareceu sem deixar rastros. Me deixou com o carro conversível prateado no meio da estrada de algum lugar. Enfim, paz.


*Quem não assistiu ao filme Jennifer’s Body talvez não entenda a coisa toda. Mas é basicamente um demônio em forma humana de Megan Fox que se alimenta de pessoas.

Episódio de hoje: A morte de Rodrigo Faro

Eu, minha mãe e meu irmão estávamos no mar, mergulhando com golfinhos. Nós estávamos perto de outras pessoas, conversando, quando alguém grita: “VOCÊ VIU NOS TRENDING TOPICS?” e eu não entendia o resto da frase. A pessoa repetia “Trending Topics, Trending Topics” e era só o que eu conseguia assimilar. Daí minha mãe me diz: “O Rodrigo Faro sofreu um acidente. Morreu.” Eu pensei “Como assim morreu?” E minha mãe, como se lendo os meus pensamentos, falou: “É, morreu. Uma caminhonete bateu no avião que ele estava vindo, da África do Sul. E ele morreu! Bateu bem na janela dele!”. Na hora fez sentido um acidente entre uma caminhonete e um avião, nem questionei.
Eu só fiquei triste, acho que até chorei. Pensei “Poxa, eu vi ele dançando Single Ladies no Ídolos. E agora? Quem vai apresentar?” Conversei com algumas pessoas sobre isso, acharam que iam cancelar o programa. Pensei “A Poalli (do TDUD) deve estar inconsolável agora…”
Não entendi porque o coitado foi a vítima.